do zero

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Tenho pensado de uns tempos pra cá que não existe uma vida que “começa do zero”. Acredito em recomeços e ainda bem que eles existem mas, a gente sempre carrega um saldo de uma vida que levou.

De novo… nenhuma novidade. Reflexões com profundidade de um pires mas, como eu aprendi há 17 anos, quando a ficha cai vira REVELAÇÃO, por mais simples que seja.

Começar uma nova vida com sombras, pedaços e memórias anteriores tem um reflexo claro no novo início. Não dá pra fugir. Como que a gente administra esse começo que já teve uns rascunhos, umas marcas de lápis, umas pontas dobradas? A página em branco mais evidente que eu penso é no meu sobrinho que vai fazer 1 ano amanhã e apesar de recente já tem vários esboços da vida naquela historinha recente.

Às vezes a nossa mente dá esses bugs porque tenta em vão apagar essas marcas mas, cada novo começo vai carregar heranças. Se eu escrever mais dois parágrafos vou repetir a mesma coisa só que com outras palavras.

Por hoje é só. A vida nova é um mix de ontens e amanhãs.

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Confortavelmente ferido

Perdi minha avó há 1 mês. A mulher mais forte da minha vida.

Outro dia, inspirado pelo insight de um sábio, comecei a pensar algumas coisas a partir de uma imagem dela. Após um acidente doméstico minha avó passou seus 3 anos finais confortável mas quase imóvel numa cama-leito. Apesar de todo cuidado para que aquele fosse o lugar mais seguro e tranquilo (e era) os ferimentos em decorrência na permanência na cama não a livraram de ferimentos. Ferimentos por ficar parada.

CATAPLAFT na minha mente. Vocês já sabem o que eu vou falar… sim, isso mesmo.

O mundo é mesmo perigoso mas o canto mais tranquilo da sua vida também pode ser seu comecinho do fim. Lembrei também de uma palestra que assisti ano passado que falaram como o ser humano mudou no uso/desuso de certos músculos do corpo. Algumas habilidades foram desenvolvidas e super exploradas (o trabalho minucioso dos dedos usar teclados cada vez menores x a ginástica para rodar uma maçaneta – isso quando ainda aparece uma maçaneta de rodar).

Chega uma hora em que o conforto começa a gerar atrofia. Ou o corpo está tão okay naquela posição serena porém sangrenta que não nota que pode nunca mais se reerguer. E quando eu digo corpo, podemos incluir  a cabeça e tudo o que passa dentro dela.

Às vezes, por sorte ou esforço, alguns mesmo imóveis fisicamente conseguem flanar por qualquer lugar pelo poder do que carrega dentro de si. O corpo físico não é necessariamente uma âncora afundada num golfo perdido. Outra vezes é preciso se mover e levar ele junto. Ainda não sei bem o que começa a atrofiar primeiro dentro da caminha do conforto: a mente ou o corpitcho?

Puxei também as histórias da Rita Lee (tô lendo a autobiografia da cantora >.<) e vejo ela como uma eterna fugitiva do leito do conforto. Ainda que seus métodos de procurar saídas não sejam tão ortodoxos mas ficar parada por minutos que fossem já geravam um engasgo mental.

Enfim… lá vai o sono e lá vem as pombas piando pruuuu na minha cabeça me chamando pra levantar.

por trás daquele barulho tem silêncios

fazia muito barulho dentro daquele silêncio todo. se chegasse muito perto era capaz de sentir a pele tremer pelo soar dos sons que partiam de toda parte daquele corpo empalidecido. às vezes queria falar mas sem a chance de conseguir ouvir a si mesmo voltava atrás e se perdia num canto do corpo onde tocavam as ladainhas. pisaram o pé e o rugido que ali se ensaiava foi parar na cabeça e por pouco não saiu pela boca. quem tava de fora mal sabia o que acontecia por trás daqueles olhos gris. e não tem nada mais triste que gris. é quando o preto perdeu o brilho ou quando o branco derrapou numa poça… é cor de incidentes. tentou soprar alguma coisa numa corneta virtual. ninguém ouviu. escalou um paredão e cuspiu suas palavras que saíram feito álcool e desapareceram antes de revelar. voltou pra si e prometeu pôr-se em ordem.

ainda faz muito barulho lá dentro.

 

 

aponta e rema

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Não sou de saudades. As boas memórias da minha vida permanecem vivas me rodeando e assobiando no meu ouvido: “- Continue olhando pra frente, garoto!” Outro dia me vi amarrado tentando reviver o que já foi vivido. O que foi já era, diz o sábio. Agora se vive outra parada, por mais que alguma coisa ainda tenha memória do que já passou.

Aponta e rema.