Black Mirror nosso de cada dia

SPOILER ALERT: este post vai ser beeem confuso1397154022_pawel-l2

Eu, assim como outros alguéns, usei os últimos dias do ano velho para assistir a 4ª temporada de Black Mirror. Na mesma época ganhei o livro Sociedade da Transparência, do filósofo Byung-Chul Ha. Só daí dá pra entender porque ando cada vez mais distante das redes… ou quase (se é que alguém se desconecta).

Sem me deter muito na análise dos episódios existe um tema que caminhou por quase toda a temporada: CONSCIÊNCIA. E se a gente pudesse ver através de outra pessoa? E se outra pessoa pudesse ver através de mim? E se eu pudesse acessar sem nenhum bloqueio a memória de outra pessoa? E se houvesse uma copia digital da minha consciência à disposição de outra pessoa para jogos etc? E se através de um protocolo cartesiano de análise da minha consciência (sem considerar a alma) eu pudesse achar o “match da minha vida” sem precisar de esforço algum de conquista?

Logo no ep. 2, em que uma mãe usa uma babá eletrônica ligada a um chip instalado na cabeça da filha capaz não apenas de ver o que a filha vê como também bloquear possíveis “coisas negativas e nocivas”, bate aquela sensação clássica após o plot point :

“Cremdioxpai, não quero estar vivo pra vivenciar isso!”

E depois a sua consciência já te avisa:

“- Já tá rolando, binho. Foge não.”

Pensei no Instagram Stories – que eu demorei MUITO tempo pra usar porque a versão do meu telefone era incompatível com esse serviço. Ali não é um jeito de viver o dia inteiro da vida de outra pessoa? E com direito a interferir naquele dia a dia opinando nas enquetes e comentando que vida você quer ver daquela pessoa hoje ou amanhã. #medo

O livro do coreano é fininho mas intenso. Prova disso é que não cheguei nem no meio. Uma das máximas do cara, e que está relacionada diretamente com nosso grau de exposição nas redes, é a de que na era da sociedade positiva tudo se mensura pelo seu valor expositivo. Quanto mais transparente a superfície for menos conflito e necessidade de argumentação. Nessa sociedade as coisas não desaparecem na escuridão mas na superexposição. Não há espaço para a negatividade porque ela pode gerar debate e o debate “atrasa” a comunicação.

Não tem espaço pra densidade, ainda que o que esteja em jogo seja a nossa consciência. É pegar ou largar.

Eu não peguei mas também não larguei. Talvez porque um dos meus objetos de pesquisa – os memes –  estão em plena manifestação nas redes sociais digitais, que por sua vez se encoram nas tecnologias que cada vez mais abandonam os “black mirrors” dos telefones e computadores para se implantarem em nosso físico (Black Mirror já cantou essa pedra no The Entire History of You).

Mesmo pendurado (nem pegado, nem largado) eu sinto um tiquin da minha morte “virtual”. Por escolher me manifestar cada vez menos, quando escolho em algum momento me dizer qualquer coisa os algoritmos me expõe pra quase ninguém ouvir. Alcancei a vitória de não estar mais em quase nenhum grupo de ~zap~, ao mesmo tempo já não ouço mais ninguém por lá… ou ouço os que podem falar comigo cara a cara.

Se eu quero viver através de outro alguém. Nem antes, nem agora.

Se essa vida tá chegando cada vez mais perto… you better bet!

 

 

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coisa pouca não é bobagem

penso eu…

O fim do amor está nas coisas pequenas, sim.

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De repente você tenta enxergar quem um dia já foi o alvo dos seus olhos mais brilhantes mas, a montanha de miudezas acumuladas ao seu redor até o topo da cabeça, mesmo ciente  de seus graus de desimportância, entrega a carta que anuncia o fim que já aconteceu.

Tô falando de acúmulos. Não é que o amor não resiste a uma louça suja na pia ou a falta de um ‘bom dia’… não é isso. Alguns podem até pôr fim ao amor ao primeiro sinal de irritação. Tá no direito.

Tô falando daquilo que não saiu antes de uma faxina que levanta tudo do chão. Ou daquilo que poderia ser lavado assim que manchou. Era até mais rápido de recuperar… eu acho.

Coisa grande ocupa espaço e a gente dá logo um jeito de resolver. Ninguém quer um elefante fazendo malabares na sala de jantar. Nessas horas vale o tudo ou nada. O amor tá sempre no tudo ou nada… meio termo não é amor, é outra coisa.

Coisa grande a gente tira logo, tirando aquelas pessoas que fazem questão de não apenas mantê-la se agigantando (porque coisa grande só aumenta) como quebram as paredes pros limites alcançarem o público. Daí tá grande mesmo, quando o fim do amor tá na boca do povo e por uma ação de deliberada de promoção da situação desgraçada. Nessas horas eu não dou like nem carinha chorando. Tenho dó.

Coisa pequena vai entrando todo dia, tipo notificação de aniversário do feicestrago. Assim como  a poeira a gente deixa pra resolver quando já tiver um volume mas é sempre tão custoso brigar por coisa pequena.

Pior ainda é o esforço de, ao notar que o amor já foi, reconhecer e resolver cada grãozinho de coisa pequena que foi entrando e entalando o tubo do amor. A gente sabe que foi coisa pouca mas a gente não tem mais pique  pra acreditar que dá pra limpar canto por canto.

O amor não resiste a coisa pouca quando é tanta coisa pouca.

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Quem vai dizer tchau | Nando Reis

Um fogão novo e eu

Depois de uma semana fazendo praticamente TODAS as refeições na rua o fogão finalmente chegou na nova casa.

No dia seguinte da entrega assisti Toast: A História de uma criança faminta, a adaptação cinematográfica da autobiografia do chef de cozinha e escrito Nigel Slater. Criado num ambiente em que a cozinha era um lugar sem nenhum atrativo – a mãe, de saúde bem fraquinha, criou o menino à base de enlatados aquecidos ainda fechados numa panela  e ZERO frutas/legumes/verduras – o garoto sonha acordado com uma vida em que possa comer comidas frescas e/ou preparadas como em qualquer outra casa de seus colegas de escola. A morte da mãe e  a chegada de uma faxineira que ganha o posto de madrasta às custas de excelentes golpes de culinária o leva a travar um batalha contra a “intrusa” usando a cozinha como front.

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O filme é super levinho, sessão da tarde,  mas quando terminei de assistir olhei pro fogão novo e prometi que eu aprenderia a lidar com ele… questão de sobrevivência.

Eu nunca fui bom de cozinha. Mesmo já adulto e morando longe de casa sempre tinha um refeitório coletivo ou um restaurante baratinho pra salvar os não-iniciados na arte de mexer panelas, como eu. Me arriscava uma vez ou outra em algum preparo (especialmente os doces e as saladas) mas encarar aquilo como hábito já me dava uma dor de preguiça… aquela que dói mais.

Tal foi o milagre operado pelo Santo Netflix que através daquela película inglesa me jogou de cara e coragem os próximos dias naquele mundo de temperos, tábuas, facas (tô com as mãos todas cortadas ou espetadas), receitas, olho mágico pra calcular medidas e paladar pra testar o sal.

Não sei explicar mas venci… tenho testemunhas.

 

It´s complicated

Como que a gente explica algumas questões da vida?

Coincidência ou não, nas séries [Chewing Gum,  13 Reasons Why, Dear White People e Sense 8] que assisti no último mês e meio,  alguém (ou vários ‘alguéns’) tentavam contar ou fugir de alguma explicação da vida com um “É complicado”.

Libriano nato, dramático por natureza, dificultar as coisas faz parte do nosso jeitinho meigo. Pensei o quanto essa frase, em vários momentos definitivos da minha vida, me impediam de encarar as situações sem mimimi. Das coisas que me chamam atenção no comportamento dos ingleses que eu conheço é a importância que eles dão para as explicações claras. A gente é meio Lulu Santos e deixa assim ficar subentendido mas às vezes é preciso falar coisa por coisa, caçar lá na raiz as soluções e os problemas, encarar chutando a desculpa. Essa exteriorização –  que pode ser um papo, uma escrita, uma gravação, sei lá – já é meio caminho pra minimizar a tensão de resolver e andar pra frente com menos medo.

Aproveitando o momento favorável (a história é longa, rs) tô tomando a liçãozinha dos ingleses pra mim. De quebra, revi as cenas das séries em que os personagens saíram pela tangente e tentei imaginar uma resposta… treinando, né mores?! Tô cheidi dica pra Sam, Tracey, Clay e Lito mas por hora deixa eu ir ali porque explicações me chamam.

No frio e no calor

Be Bra1340231274024311.jpgve!

“- Às vezes a gente precisa chegar num ponto extremo pra sentir o vento frio que passa nesse despenhadeiro. Deixar aquele pavor subir da ponta dos pés aos cabelos e entender que viver é estar sempre pronto a romper alguma estrada, mesmo que seja um caminho repetido. Sabe quando o machucado já sarou mas aquela casquinha tá ali e você só não arranca com medo de sangrar de novo? Puxa logo essa p&rr*! Quando você tirou aquele cisto enorme no dia seguinte já tava galopando pela fazenda de novo como há tempos não fazia. Deixa de medo! Eu queria poder soprar coragem no seu nariz. Inflar seu peito de força e ar quente pra você encher que nem um boneco de posto. Grande. Empinado. Com esse casaco você fica parecendo um urso polar. Se eu for aí for arrancar isso e você vai ser obrigado e sentir o calor que tá fazendo aqui. Calor faz bem, cozinha as coisas. Comida crua só salada. Tira isso vai. Sente o frio também. Tem gente que só desperta com choque.”