Um fogão novo e eu

Depois de uma semana fazendo praticamente TODAS as refeições na rua o fogão finalmente chegou na nova casa.

No dia seguinte da entrega assisti Toast: A História de uma criança faminta, a adaptação cinematográfica da autobiografia do chef de cozinha e escrito Nigel Slater. Criado num ambiente em que a cozinha era um lugar sem nenhum atrativo – a mãe, de saúde bem fraquinha, criou o menino à base de enlatados aquecidos ainda fechados numa panela  e ZERO frutas/legumes/verduras – o garoto sonha acordado com uma vida em que possa comer comidas frescas e/ou preparadas como em qualquer outra casa de seus colegas de escola. A morte da mãe e  a chegada de uma faxineira que ganha o posto de madrasta às custas de excelentes golpes de culinária o leva a travar um batalha contra a “intrusa” usando a cozinha como front.

toast

O filme é super levinho, sessão da tarde,  mas quando terminei de assistir olhei pro fogão novo e prometi que eu aprenderia a lidar com ele… questão de sobrevivência.

Eu nunca fui bom de cozinha. Mesmo já adulto e morando longe de casa sempre tinha um refeitório coletivo ou um restaurante baratinho pra salvar os não-iniciados na arte de mexer panelas, como eu. Me arriscava uma vez ou outra em algum preparo (especialmente os doces e as saladas) mas encarar aquilo como hábito já me dava uma dor de preguiça… aquela que dói mais.

Tal foi o milagre operado pelo Santo Netflix que através daquela película inglesa me jogou de cara e coragem os próximos dias naquele mundo de temperos, tábuas, facas (tô com as mãos todas cortadas ou espetadas), receitas, olho mágico pra calcular medidas e paladar pra testar o sal.

Não sei explicar mas venci… tenho testemunhas.

 

It´s complicated

Como que a gente explica algumas questões da vida?

Coincidência ou não, nas séries [Chewing Gum,  13 Reasons Why, Dear White People e Sense 8] que assisti no último mês e meio,  alguém (ou vários ‘alguéns’) tentavam contar ou fugir de alguma explicação da vida com um “É complicado”.

Libriano nato, dramático por natureza, dificultar as coisas faz parte do nosso jeitinho meigo. Pensei o quanto essa frase, em vários momentos definitivos da minha vida, me impediam de encarar as situações sem mimimi. Das coisas que me chamam atenção no comportamento dos ingleses que eu conheço é a importância que eles dão para as explicações claras. A gente é meio Lulu Santos e deixa assim ficar subentendido mas às vezes é preciso falar coisa por coisa, caçar lá na raiz as soluções e os problemas, encarar chutando a desculpa. Essa exteriorização –  que pode ser um papo, uma escrita, uma gravação, sei lá – já é meio caminho pra minimizar a tensão de resolver e andar pra frente com menos medo.

Aproveitando o momento favorável (a história é longa, rs) tô tomando a liçãozinha dos ingleses pra mim. De quebra, revi as cenas das séries em que os personagens saíram pela tangente e tentei imaginar uma resposta… treinando, né mores?! Tô cheidi dica pra Sam, Tracey, Clay e Lito mas por hora deixa eu ir ali porque explicações me chamam.

No frio e no calor

Be Bra1340231274024311.jpgve!

“- Às vezes a gente precisa chegar num ponto extremo pra sentir o vento frio que passa nesse despenhadeiro. Deixar aquele pavor subir da ponta dos pés aos cabelos e entender que viver é estar sempre pronto a romper alguma estrada, mesmo que seja um caminho repetido. Sabe quando o machucado já sarou mas aquela casquinha tá ali e você só não arranca com medo de sangrar de novo? Puxa logo essa p&rr*! Quando você tirou aquele cisto enorme no dia seguinte já tava galopando pela fazenda de novo como há tempos não fazia. Deixa de medo! Eu queria poder soprar coragem no seu nariz. Inflar seu peito de força e ar quente pra você encher que nem um boneco de posto. Grande. Empinado. Com esse casaco você fica parecendo um urso polar. Se eu for aí for arrancar isso e você vai ser obrigado e sentir o calor que tá fazendo aqui. Calor faz bem, cozinha as coisas. Comida crua só salada. Tira isso vai. Sente o frio também. Tem gente que só desperta com choque.”

offline

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Tenho usado cada vez menos o facebook e isso só me tem feito bem. Receita pessoal. Cada um sabe qual é a dosagem ideal para cada coisa que consome.

Um cara que admiro e que está passando por um período especial de mudanças e dificuldades comentou que a ausência nessa que é uma das maiores redes sociais do planeta só lhe fez bem. O ~feice~ tem se tornado um potencializador de uma ânsia que só f***. Nós dois, enquanto refletíamos, pensávamos como o uso do facebook nos deixa angustiados – seja lá pelo motivo que for. Nós irritamos com as discussões, nos decepcionamos com “surpresas” que chegam por lá, vamos perdendo cada vez mais a coragem de expressar qualquer coisa que seja já imaginando os feedbacks, os likes, carinhas irritadas ou até a falta das reações.

Não vou negar o quanto que o FB colaborou para manutenção de vínculos importantes (aqueles que não vivem à base de curtir/compartilhar), para trazer agilidade para o trabalho e para o estudo entre outras coisas. Eu, por exemplo, agradeço quando o ~feice~me lembra um aniversário ou um evento.

Estou em processo de superação da F.O.M.O e espero poder em breve poder lidar melhor com o facebook mas, por hora… offline.

 

o que nos faz continuar…

abandonedlove-3-640x440É coisa saudável reconhecer diferenças e aprender a viver bem a dois nesses termos. É um tempero que refina o nosso interesse de crescer mais na experiência de andar junto com alguém. Acontece que às vezes nos pegamos tempo demais observando esses contrastes até finalmente acharmos as tais ‘diferenças irreconciliáveis’. E esse gatilho pode ser o começo do fim se já não for o próprio fim.

Nessas horas a gente se encara lá no fundo até reconhecer o brilho que ainda nos leva a seguir caminhando. A outra ponta do farol que reflete na mesma intensidade ou, quando dá curto a gente não se importa de parar tudo e abrir pra consertar.

As nossas semelhanças nos carregam e as nossas diferenças nos enriquecem.

Intimate Quotes in Public Spaces

sobre giros de pulso e de íris

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Fazer a mesma coisa por um longo período e várias vezes por dia modifica a nossa capacidade cognitiva. Se em partes acostumamos nosso corpo e mente a um novo padrão, enfraquecemos ou até atrofiamos outro. Já somos incapazes de realizar determinados movimentos e perdemos o domínio total de algumas habilidades motoras como a rotação de pulso. Essa era uma ação muito comum do nosso dia a dia praticada no ato de abrir portas girando maçanetas. Mas pera… onde estão as maçanetas de rodar? Em compensação, já digitamos em teclados cada vez menores. Ou seja, novos hábitos, novos usos.

Essa cultura da tecnologia como algo externo a nós também está com os dia contados (#profeta) diante da geração de tecnologia wearable (vide GoogleGlass e iWatch). Em algum tempo no futuro a contar de agora descobriremos novos sensores no nosso corpo, novos dispositivos internos que multiplicarão nossa capacidade muscular da face, por exemplo. E isso é só o começo.

Melhor seria se pudéssemos seguir avançando na descoberta do nosso corpo – essa coisa tão fabulosa –  sem permitir que algumas coisas desapareçam por descuido ou falta de uso.

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XI ENECULT | Salvador | ago2015