coisa pouca não é bobagem

penso eu…

O fim do amor está nas coisas pequenas, sim.

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De repente você tenta enxergar quem um dia já foi o alvo dos seus olhos mais brilhantes mas, a montanha de miudezas acumuladas ao seu redor até o topo da cabeça, mesmo ciente  de seus graus de desimportância, entrega a carta que anuncia o fim que já aconteceu.

Tô falando de acúmulos. Não é que o amor não resiste a uma louça suja na pia ou a falta de um ‘bom dia’… não é isso. Alguns podem até pôr fim ao amor ao primeiro sinal de irritação. Tá no direito.

Tô falando daquilo que não saiu antes de uma faxina que levanta tudo do chão. Ou daquilo que poderia ser lavado assim que manchou. Era até mais rápido de recuperar… eu acho.

Coisa grande ocupa espaço e a gente dá logo um jeito de resolver. Ninguém quer um elefante fazendo malabares na sala de jantar. Nessas horas vale o tudo ou nada. O amor tá sempre no tudo ou nada… meio termo não é amor, é outra coisa.

Coisa grande a gente tira logo, tirando aquelas pessoas que fazem questão de não apenas mantê-la se agigantando (porque coisa grande só aumenta) como quebram as paredes pros limites alcançarem o público. Daí tá grande mesmo, quando o fim do amor tá na boca do povo e por uma ação de deliberada de promoção da situação desgraçada. Nessas horas eu não dou like nem carinha chorando. Tenho dó.

Coisa pequena vai entrando todo dia, tipo notificação de aniversário do feicestrago. Assim como  a poeira a gente deixa pra resolver quando já tiver um volume mas é sempre tão custoso brigar por coisa pequena.

Pior ainda é o esforço de, ao notar que o amor já foi, reconhecer e resolver cada grãozinho de coisa pequena que foi entrando e entalando o tubo do amor. A gente sabe que foi coisa pouca mas a gente não tem mais pique  pra acreditar que dá pra limpar canto por canto.

O amor não resiste a coisa pouca quando é tanta coisa pouca.

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Quem vai dizer tchau | Nando Reis

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Mestre das diretas

atypical

Terminei de ver Atypical, comédia drámática da Netflix centrada num adolescente autista e as questões que estão atreladas à sua vida (escola, família, relacionamentos etc).

Pessoalmente só me lembro de conhecer um cara com autismo e só recentemente disse que já tem até protagonista autista na Malhação (e a garota em questão nem de longe preenche o perfil tradicional de pessoas nesta condição).

Não foi uma experiência fantástica nem alguma coisa que me rendesse muito blablabla aqui no Babalu mas, uma coisa que me chamou muito atenção na série, bem própria dos autistas e muito útil para a vida de qualquer um é a importância de tentar se expressar de um jeito que se faça compreensível.

Pelo que entendi na série, pessoas com autismo têm dificuldade de entender entrelinhas. Se você jogar com sarcasmo, ironia, dizer com a boca uma coisa e com o corpo e com o corpo outra… eles entendem o que está ao pé da letra. E por não terem um termômetro do que se pode e não se pode dizer (na convenção social) a verdade/sinceridade é a prática mor dos caras.

Um exemplo disso é a maneira como o Sam (protagonista da série)  surpreende seus pais, irmã, colegas de escola e trabalho nos momentos mais improváveis falando de masturbação ou de como está o progresso no plano de perder a virgindade a partir de uma lista indicada por um amigo de “passos” até o sexo (pegar na mão, ver peitos, pegar nas partes e agasalhar o croquete – a lista usa essas palavras, tá). Tudo muito cartesiano, claro… sem enrolação.

Claro que a gente não pode jogar desse jeito com a nossa vida ou destruiríamos todas as nossas relações mas quantas vezes empacamos nossa vida com alguém – seja quem for – porque sobra tudo MENOS transparência.

Eu acho um charme entrelinhas e mestre do sarcasmo mas existem pessoas não-autistas que também falam essa língua do não dito e podem entender exatamente o que a nossa boca diz. Daí a merda tá feita.

uma história sobre série de casal

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Comecei a assistir Please Like Me numa dessas situações em que o novo casal escolhe uma série pra curtir juntos. A última vez que isso tinha acontecido eu fracassei absurdamente num tempo em que não existia Netflix onde eu fiz a garota devolver todos os DVD alugados (YEEES!) da saga do Harry Potter sem eu ter visto sequer 15 minutos de cada filme por motivos de ‘dormi no sofá’.

Voltando pro presente…

Please like é uma série americana escrita e protagonizada por um ator/humorista/roteirista que adaptou as próprias histórias da novidade da vida adulta. O conteúdo é leve, bem escrito e repleto de entrelinhas que poderiam fracassar miseravelmente se não fossem executadas por um elenco coeso que entrega o que promete.

Eu não curtia a Please Like Me. Mesmo depois de ter concluído todos os episódios das 4 únicas temporadas eu não me sentia confortável com um protagonista que não tem nada de bom para falar sobre as pessoas. Pelo contrário, ele fazia questão de realçar os piores detalhes de cada pessoa que passava pelo seu caminho, desde seus pais (a mãe tá louca internada numa clínica no começo da série), passando pelos roomates, passando pelos dates (eles se descobre gay no primeiro episódio) até os desconhecidos.

O pior era admitir que eu era muito parecido com o Josh. Daí o fracasso da segunda tentativa da “série de casal”.

Passa o tempo, e guardadas as devidas diferenças entre eu (que não sou um novo adulto) e Josh volto a acompanhar a série agora sozinho por motivos de ‘adoro séries de 30 minutos’, rs.

A história não avança muito em 4 temporadas e às vezes parece um desses sitcoms em que cada dia é um caso e pronto. Daí chegam os dois episódios finais: um INTEIRO numa mesa de restaurante entre o protagonista e seus pais separados e, o último, com o evento que troca a rota da história.

Vi os dois sem respirar.

Ao terminar escrevi umas 5 páginas sobre os novos dilemas adultos contemporâneos e como eu ando como num trapézio em algumas questões.

É estranho ser a última geração analógica, vivenciar a transição de um mundo que rezava uma cartilha e hoje abre um leque de mil e tantas possibilidades de vida. (E isso piora pro libriano).

No fim, Please Like Me se tornou uma série likeable e entrou pro rol das favoritinhas da vida. Se um dia eu virar professor ossso até usar alguns eps pra ilustrar aulas… vai vendo.

Virei Meme

TOPO_VM2.pngAlguns já sabem que nos últimos anos comecei a pesquisar com um pouco mais de atenção as questões da cibercultura e os fenômenos da internet, em especial os MEMES DA INTERNET.

Comecei um blog como parte do projeto de pesquisa da dissertação que está a caminho e por lá tô tentando falar (e pensar) um tiquin sobre os temas de um jeito simples.
Se quiser acompanhar, sugerir assuntos ou se unir na coleta de informações é só chegar.

https://vireiummeme.wordpress.com/

Um fogão novo e eu

Depois de uma semana fazendo praticamente TODAS as refeições na rua o fogão finalmente chegou na nova casa.

No dia seguinte da entrega assisti Toast: A História de uma criança faminta, a adaptação cinematográfica da autobiografia do chef de cozinha e escrito Nigel Slater. Criado num ambiente em que a cozinha era um lugar sem nenhum atrativo – a mãe, de saúde bem fraquinha, criou o menino à base de enlatados aquecidos ainda fechados numa panela  e ZERO frutas/legumes/verduras – o garoto sonha acordado com uma vida em que possa comer comidas frescas e/ou preparadas como em qualquer outra casa de seus colegas de escola. A morte da mãe e  a chegada de uma faxineira que ganha o posto de madrasta às custas de excelentes golpes de culinária o leva a travar um batalha contra a “intrusa” usando a cozinha como front.

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O filme é super levinho, sessão da tarde,  mas quando terminei de assistir olhei pro fogão novo e prometi que eu aprenderia a lidar com ele… questão de sobrevivência.

Eu nunca fui bom de cozinha. Mesmo já adulto e morando longe de casa sempre tinha um refeitório coletivo ou um restaurante baratinho pra salvar os não-iniciados na arte de mexer panelas, como eu. Me arriscava uma vez ou outra em algum preparo (especialmente os doces e as saladas) mas encarar aquilo como hábito já me dava uma dor de preguiça… aquela que dói mais.

Tal foi o milagre operado pelo Santo Netflix que através daquela película inglesa me jogou de cara e coragem os próximos dias naquele mundo de temperos, tábuas, facas (tô com as mãos todas cortadas ou espetadas), receitas, olho mágico pra calcular medidas e paladar pra testar o sal.

Não sei explicar mas venci… tenho testemunhas.

 

dispensa o que transborda

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A gente insiste no desejo de abraçar o mundo. Não sei bem se isso é um defeito incorrigível ou uma bonita maneira de reconhecer a enormidade de universos que há para explorar. De toda forma, é inviável. Seja uma vontade infantil dos eternos insatisfeitos com o que possuem ou uma admirável tentativa de não sucumbir à mesmice, não deixa de ser inútil. Não temos braços e fôlego para abarcar a totalidade do que nos falta mantendo, ao mesmo tempo, o que nos sobra. Resta, então, a dura e inevitável escolha. Abrir mão de algumas coisas para conquistar outras… Aceitar que renunciar é, sobretudo, liberar espaço para novos caminhos.

Funciona com armários e com a vida. Chega uma hora que não cabe mais. A gente tenta fazer puxadinho, apertar, comprimir, guardar o excesso embaixo da cama ou no fundo do peito. Mais cedo ou mais tarde, porém, é preciso admitir que a solução é dispensar o que transborda. Vai doer dizer adeus ao sapato de estimação da década passada e aos vícios emocionais já internalizados como parte fundamental do que somos. Mas apenas por pouco tempo, até que as lacunas sejam preenchidas pela novidade que aguardava ansiosa para revigorar o que estava coberto de teias e mofo.

É um exercício de maturidade acatar a ideia de que não se pode ter tudo. Somos sonhadores marrentos que querem a tranquilidade do campo e a modernidade das grandes cidades, estabilidade e aventura, amores fieis e romances múltiplos, corpos sarados e bacon crocante. Queremos a adrenalina das descobertas do que é diferente e a segurança do que é familiar. Banho de chuva sem tosse, liberdade e posse, morar em mil países e ter a família por perto. Queremos o sapato novo e o velho (mesmo que esquecido no canto do armário abarrotado). Almejamos uma realidade pincelada pela ilusão de que dá para somar sem subtrair.
É possível, sem dúvida, equilibrar doses de muitos sabores e experimentar variadas sensações. Não estamos fadados a seguir direções maniqueístas. Podemos compor a trajetória com diversidade, num mosaico de possibilidades. Mas não sem perder um bocado de nós pelo percurso. À medida que avançamos, deixamos para trás pedaços do que um dia foi precioso. É o necessário ciclo de perdas e ganhos nos mostrando que, entre prazeres e êxitos adquiridos, algo de bom será sacrificado.

Parece uma lógica um pouco cruel essa que contraria nossa expectativa de guardar em um baú tudo aquilo que nos faz bem sem nos desprendermos de nada. E, paralelamente a isso, acumular o que está por vir. Talvez porque, desde muito cedo, apesar de apegados ao que conquistamos, nos condicionamos a desejar aquilo que está ausente, muito mais do que a saborear o que concretamente já é nosso (aquele comportamento platônico que bem conhecemos). E aí começa essa batalha louca e intensa que consiste na alternância entre abrir-se para receber o mundo que falta e fechar-se para não perder o mundo que há. Mas como já sabemos, não dá para ter tudo… Estamos presos à engrenagem que nos rege movida pelo peso das renúncias aliviado por recompensas posteriores.

(Larissa Bittar)