Confortavelmente ferido

Perdi minha avó há 1 mês. A mulher mais forte da minha vida.

Outro dia, inspirado pelo insight de um sábio, comecei a pensar algumas coisas a partir de uma imagem dela. Após um acidente doméstico minha avó passou seus 3 anos finais confortável mas quase imóvel numa cama-leito. Apesar de todo cuidado para que aquele fosse o lugar mais seguro e tranquilo (e era) os ferimentos em decorrência na permanência na cama não a livraram de ferimentos. Ferimentos por ficar parada.

CATAPLAFT na minha mente. Vocês já sabem o que eu vou falar… sim, isso mesmo.

O mundo é mesmo perigoso mas o canto mais tranquilo da sua vida também pode ser seu comecinho do fim. Lembrei também de uma palestra que assisti ano passado que falaram como o ser humano mudou no uso/desuso de certos músculos do corpo. Algumas habilidades foram desenvolvidas e super exploradas (o trabalho minucioso dos dedos usar teclados cada vez menores x a ginástica para rodar uma maçaneta – isso quando ainda aparece uma maçaneta de rodar).

Chega uma hora em que o conforto começa a gerar atrofia. Ou o corpo está tão okay naquela posição serena porém sangrenta que não nota que pode nunca mais se reerguer. E quando eu digo corpo, podemos incluir  a cabeça e tudo o que passa dentro dela.

Às vezes, por sorte ou esforço, alguns mesmo imóveis fisicamente conseguem flanar por qualquer lugar pelo poder do que carrega dentro de si. O corpo físico não é necessariamente uma âncora afundada num golfo perdido. Outra vezes é preciso se mover e levar ele junto. Ainda não sei bem o que começa a atrofiar primeiro dentro da caminha do conforto: a mente ou o corpitcho?

Puxei também as histórias da Rita Lee (tô lendo a autobiografia da cantora >.<) e vejo ela como uma eterna fugitiva do leito do conforto. Ainda que seus métodos de procurar saídas não sejam tão ortodoxos mas ficar parada por minutos que fossem já geravam um engasgo mental.

Enfim… lá vai o sono e lá vem as pombas piando pruuuu na minha cabeça me chamando pra levantar.

It´s complicated

Como que a gente explica algumas questões da vida?

Coincidência ou não, nas séries [Chewing Gum,  13 Reasons Why, Dear White People e Sense 8] que assisti no último mês e meio,  alguém (ou vários ‘alguéns’) tentavam contar ou fugir de alguma explicação da vida com um “É complicado”.

Libriano nato, dramático por natureza, dificultar as coisas faz parte do nosso jeitinho meigo. Pensei o quanto essa frase, em vários momentos definitivos da minha vida, me impediam de encarar as situações sem mimimi. Das coisas que me chamam atenção no comportamento dos ingleses que eu conheço é a importância que eles dão para as explicações claras. A gente é meio Lulu Santos e deixa assim ficar subentendido mas às vezes é preciso falar coisa por coisa, caçar lá na raiz as soluções e os problemas, encarar chutando a desculpa. Essa exteriorização –  que pode ser um papo, uma escrita, uma gravação, sei lá – já é meio caminho pra minimizar a tensão de resolver e andar pra frente com menos medo.

Aproveitando o momento favorável (a história é longa, rs) tô tomando a liçãozinha dos ingleses pra mim. De quebra, revi as cenas das séries em que os personagens saíram pela tangente e tentei imaginar uma resposta… treinando, né mores?! Tô cheidi dica pra Sam, Tracey, Clay e Lito mas por hora deixa eu ir ali porque explicações me chamam.

No frio e no calor

Be Bra1340231274024311.jpgve!

“- Às vezes a gente precisa chegar num ponto extremo pra sentir o vento frio que passa nesse despenhadeiro. Deixar aquele pavor subir da ponta dos pés aos cabelos e entender que viver é estar sempre pronto a romper alguma estrada, mesmo que seja um caminho repetido. Sabe quando o machucado já sarou mas aquela casquinha tá ali e você só não arranca com medo de sangrar de novo? Puxa logo essa p&rr*! Quando você tirou aquele cisto enorme no dia seguinte já tava galopando pela fazenda de novo como há tempos não fazia. Deixa de medo! Eu queria poder soprar coragem no seu nariz. Inflar seu peito de força e ar quente pra você encher que nem um boneco de posto. Grande. Empinado. Com esse casaco você fica parecendo um urso polar. Se eu for aí for arrancar isso e você vai ser obrigado e sentir o calor que tá fazendo aqui. Calor faz bem, cozinha as coisas. Comida crua só salada. Tira isso vai. Sente o frio também. Tem gente que só desperta com choque.”

Mastigando respostas

Das série que assisti em 2016 talvez uma que mais falou comigo foi Chewing Gum.

Despretensiosa, leve e com humor que cata a gente conseguiu dar uma sacudida nas minhas percepções. A história de uma jovem criada dentro de uma disciplina apertada em pleno subúrbio londrino que a começar pelo interesse em perder a virgindade vai se permitindo explorar campos que ela nunca mesmo se autorizou.

Por ser levinha a série consegue tratar de questões polêmicas (religiosidade, machismo, racismo e uso de substâncias não autorizadas) sem querer dar lição ou fazer militância jihad.

Devota de Jesus e Beyoncé, Tracey (a protagonista) está o tempo todo se questionando, questionando o mundo que ela viveu até aquele momento e a cada inquietação ela dá 2 passos pra frente. No final da primeira temporada ela ainda é a mesma suburbana mas o simples fato de ter se permitido ser outra pessoa por dentro – um bom começo –  já segura o gancho pra temporada seguinte.

A vida é isso né. Questionar, tentar responder e avançar pra próxima casa onde pode ter prenda ou prêmio. O importante é viver a vida toda… inteira.c

dos contratos que estabelecemos

Talvez por conta de quase um ano e meio estudando/orientando reflexões sobre cultura tive que ir desnaturalizando o meu olhar pra várias coisas que sempre tiveram modelos ~fixos~ na cabeça de um adulto que não nasceu na era do digital.

Tem sido um exercício interessante reconhecer a legitimidade de certos lugares de fala e deslocar o olhar que sempre apontava pro umbigo.

Entre tanto assuntos estava a questão dos relacionamentos e como que as pessoas se resolvem com seus parceiros. Não que este assunto – que sempre julguei ser do universo privado – precise ser problematizado numa palanque mas, como dizia Caetano:

“Todo mundo quer saber com quem você se deita… nada pode prosperar”.

No fim do ano a internet “quebrou” com o anúncio do fim do Cajout e uma justificativa ainda desnecessária dos porquês. Se um casal termina um relacionamento o problema (ou solução) é deles.

Daí hoje a Jout Jout voltou a trazer o tema do tal relacionamento aberto.

Desta vez o foco estava menos na história dela com o Caio e sim no que as pessoas consideram na hora de se aproximar/repelir. Com o bom humor de sempre ela utiliza até as reações dos seus inscritos para debater a quem mesmo interessa um relacionamento senão aos próprios envolvidos. Outra coisa diz respeito aos contratos. Talvez a palavra soe estranha num contexto  de amor mas, todas as relações são contratos. No caso deles, o contrato de fidelidade incluía nunca assistir Netflix com “os terceiros”. Mais uma vez… o sexo não é o centro do acordo.

Mesmo para quem vive um relacionamento monogâmico e feliz 🙂 é importante ouvir com respeito a consideração que outra pessoa tem com relação à vida. Não se trata de uma militância pelo fim dos relacionamentos a dois, pela destruição da moralidade, pelo direito da V1D@ L0Ka. Na verdade eu, que não tenho nada a ver com o que a JoutJout faz da vida, olho pras histórias que eles contaram e vejo muita saúde na relação. Deve ter sido muito bom para os dois e isto é mais do que suficiente.