As hienas também fazem pós-graduação

Muito se fala da tal síndrome do impostor que acomete muitos de nós, pesquisadores no ambiente da pós-graduação. É um fantasma a que poucos ficam imunes. Eu, concluindo o 3º ano do doutorado, já aceitei essa “presença” e vou aprendendo a lidar e combater. Mas tem um outro monstrinho que tenho enxergado mais como aquele tipo de hiena que acompanhava o Scar (Rei Leão), igualmente nocivo e muitas vezes mais fácil de botar pra correr.

Pois muito que bem. Ocorre que não poucas vezes, quando entramos na “academia” somos tratados como se tivéssemos recém aprendido a ler, escrever, interpretar. Não é só a nossa capacidade de defender nossos argumentos de pesquisa que é posta à prova, mas a nossa própria competência quando não a nossa humanidade. E fica ali naquele saco de estopa apanhando e sendo lançado de um lado pro outro.

Não é um tratamento exclusivo da relação orientador x orientando, que nesse ponto acho que fui bastante poupado de vivenciar, mas se estende pra essas hienas cuja presença existe só pra fazer esse joguinho besta que mencionei acima. Aqui sim, minha carapuça de vítima cabe tanto no mestrado quanto agora. Nessas horas não importa trajetória de carreira, nem habilidade testada e aprovada em diferentes ambientes, inclusive com registro público, já que somos, no nosso caso, profissionais da comunicação publicitária.

E convenhamos: hiena não caça, ronda. Não tem presa própria, vive de sobra e de bando; sozinha ela nem ri direito, precisa das amigas por perto pra fazer a gritaria toda. No território da pós isso tem nome e sobrenome. É comum estar subordinado a gente que, em qualquer outra hierarquia da vida, seria a primeira a admitir os próprios limites, mas que, ali, avalia teu trabalho prático e intelectual a partir dessas insuficiências instrumentais, pra chamar de um jeito bonito. Dois causos, sem citar nome, porque elas se reconhecem sozinhas. Já fui “orientado” em social media por gente que não sabe editar um post; já levei aula de teoria de comunicação de quem nunca pisou numa sala de comunicação. É a hiena arrastando presa que ela nem caçou.

No fim, a lição do Rei Leão sempre foi clara. Hiena é bando, é escândalo, é fome disfarçada de autoridade. Mufasa não perdia sono com elas. Eu tô tentando não perder também, mas confesso que tem dia ainda dou mole. Sempre um otário.

Sem acesso

Bonjour… ainda tem alguém por aqui?

Pois muito que bem. A vida tá dando seus saltos e em um deles cá eu estou de volta nesse quadrado de “longas cartas pra ninguém”.

O caso hoje é curto (eu acho).

Faz um tempinho que esbarrei nesse reels de uma influencer meio coach e, ao invés da rejeição habitual a esse tipo de conteúdo aquilo “bateu certo” (como dizem os baianos) com algo que eu tenho tentado aplicar na minha vida nos últimos anos.

No vídeo a mensagem é simples e didática: a melhor resposta que podemos dar àquelas pessoas que brincaram com a gente, riram da nossa cara, nos maltrataram, deixaram pontos sensíveis em nós é cortar os acessos.

Antes de qualquer coisa, quero evitar a simplificação. Eu sempre achei que o block é tão forte quanto o like. O ódio tem a mesma energia do amor, só que invertida. Por diversas vezes eu escolhi ignorar ao invés de silenciar ou bloquear simplesmente porque não queria dar essa moral. Outras vezes o bloqueio é paz… juro.

O papo da moça (e que ressoa com meu pensamento) é que quando a gente elimina as portas por onde alguém que nos magoou pode saber da gente (se informar, tomar pé da nossa vida, se atualizar do que aconteceu com a gente pós-evento) a gente tira essa pessoa um poder invisível. Ao mesmo tempo, o rastro dessa pessoa pra nós também tende a desaparecer.

Entre 2022 e 2023 tive dois casos particulares que me feriram o suficiente para quase me paralisar. E as conexões eram fortes o bastante pra nos manter ainda meio no mesmo universo e, consequentemente, gerando mais dor pra mim.

Daí alguém pode vir: “- Ahh, Thi, mas e o perdão?!”. Em alguns casos tudo pode se resolver com um papo sincero e um acerto de contas. Em outras… melkoo.

Tirando a coach de campo e trazendo pra minha aplicação, teve perdão, sim. Eu tive que me perdoar da burrice, da falta de noção, da imaturidade de ceder espaço pra alguém zoar comigo seja usando a capa da autoridade ou do coleguismo.. Eu me perdoei, de resto… sem acesso.

Vanessa da Matta tem lá a música de pedindo pra Deus fazê-la esquecer, mas só de pedir ela se lembra. Comigo Deus foi mais legal. Só tô lembrando da mágoa porque a memória da minha escolha é mais forte. Hoje, inclusive, digo orgulhosamente que são fantasmas que nem vejo… nem sei se ainda existem. Sumiram. Perdi de vista.

ano 3: quando a numerologia encontra a qualificação

euzin, sim senhora

Agora, em 2026, entro no Ano Pessoal 3. E se a numerologia não tá mentindo (e eu quero muito acreditar que não tá), esse é o ano de botar pra fora. De falar, de mostrar, de aparecer. De criar sem medo. De transitar entre espaços. De brilhar, sei lá. Ou pelo menos tentar não desabar quando alguém perguntar “mas por quê?”.

O povo diz que o ciclo 3 trata de expansão criativa, comunicação, visibilidade e sociabilidade. É o ano de tirar da gaveta, de publicar, de falar em público, de fazer parcerias, de mostrar o que você anda fazendo. É um ciclo mais leve, mais solto, mais “bora ver no que dá”.

Ótimo. Perfeito. Maravilhoso.

Só que tem um detalhe: 2026 também é o ano do meu exame de qualificação do doutorado.

Pra quem não sabe (ou nunca se importou em saber), a qualificação é aquele momento no doutorado em que você apresenta o andamento da tese pra uma banca de 2 ou 3 pessoas que vão avaliar se você tá no caminho certo, se a metodologia faz sentido, se você não tá viajando demais. É tipo um “ponto de controle” antes da defesa final. Ao final alguém te diz: “Temos tese” ou “Volte 4 casas e fique uma rodada sem jogar”.

E é tenso. Muito tenso. Porque não é só mostrar que você leu um monte de coisa. Você precisa mostrar que acredita no que tá fazendo. Que você tem convicção. Que você sabe responder “mas por quê?” sem desabar feito bolo mal-feito. E aí é que tá a graça (ou a desgraça): o Ano Pessoal 3 pede exatamente o que a qualificação exige. Expressão. Comunicação. Visibilidade. Mostrar pro mundo o que você anda pensando. Colocar pra fora, sem medo.

A diferença é que na numerologia isso parece leve, fluido, quase natural. Na qualificação, é só pânico mesmo.

Mas talvez seja justamente por isso que o ciclo caiu aqui. Talvez seja pra me empurrar pra fora da toca. Pra me fazer acreditar que eu tenho algo a dizer. Que eu posso falar sobre tudo o que tenho maquinado nos últimos 2 anos (vou nem citar porque pensar cansa) sem parecer que tô inventando moda. Que eu mereço estar ali, na frente de uma banca, defendendo uma ideia que faz sentido pra mim (e espero que faça sentido pros outros também).

O Ano 3 também fala de sociabilidade. De estar mais presente em eventos, de conhecer gente nova, de fazer parcerias, de fortalecer vínculos. E eu tô numa fase estranha com isso. Completei 44 anos e quanto mais “velho” eu fico, menos paciência eu tenho pra vínculo falso. Pra amizade de conveniência. Pra gente que tá ali só porque sim. E o Ano 3 pode ser bom justamente pra isso. Pra filtrar. Pra cultivar quem realmente importa. Pra ser sincero sobre quem eu quero (ou não quero) por perto.

A maturidade não me trouxe mais amigos. Me trouxe os amigos certos. E a coragem de dizer não pro resto. E talvez seja isso que o ano pede: clareza relacional. Menos dispersão afetiva, mais presença verdadeira.

Mas calma. Nem tudo são flores. O Ano 3 também tem suas ciladas.

A primeira delas é a dispersão. Com tanta ideia e tanto estímulo, a gente pode começar mais do que termina. E isso vale tanto para o doutorado (o que pode ser fatal), quanto para outras áreas da vida. Então, ok, o ano pede criatividade, mas também pede foco.

A segunda cilada é o excesso de exposição. O 3 favorece visibilidade, mas isso não significa que preciso falar de tudo o tempo todo. Tem hora que é melhor ficar quieto. Tem hora que é melhor não postar nada. Tem hora que é melhor só pensar. É uma regra meio básica, mas especialmente útil dentro desse cenário que está se abrindo.

E a terceira cilada é a procrastinação. O ciclo tem uma vibe festiva, leve, quase preguiçosa. E se a gente não toma cuidado, trabalhos mais densos (tipo, sei lá, uma tese) podem travar. Então é isso: leveza, sim, mas com um mínimo de rotina. Mas aqui meu ascendente em Virgem já se antecipa em ordem e rigidez. Talvez, de todos, seja o menor risco.

Não vou dizer que espero muitas coisas para esse 2026. Espero coisas estratégicas. Parte delas pode ser interpretada nas linhas deste post profundidade de pires. Inseguranças, desconfianças, medinhos… tá tudo atrás da porta esperando serem acionadas pra fazer aquele estrago.

confissões de um doutorando: quando a pergunta mata a certeza

O feed virou cassino: algoritmos, afeto e as máquinas desejantes

As imagens são sedutoras: sorrisos, cifras, links, promessas. Influencers comemoram vitórias em sites de apostas com a leveza de quem compartilha uma dica de moda ou uma nova série. Mas por trás desse tom casual – muitas vezes embalado em vídeos curtos e virais – há uma engrenagem mais complexa em funcionamento. A CPI das Bets, instaurada no Senado, tenta puxar esse fio: como influenciadores digitais vêm promovendo plataformas de jogos de azar que têm impacto direto na vida (e no bolso) de milhões de brasileiros.

O interesse popular por essa investigação ganhou novo fôlego nos últimos dias, após o depoimento de Virginia Fonseca à comissão. A influenciadora, que acumula mais de 53 milhões de seguidores no Instagram (número superior à população somada da Austrália, Grécia, Portugal e Irlanda, segundo cálculo da jornalista Rosana Hermann), foi convocada por ter divulgado uma casa de apostas em seu perfil. Durante seu depoimento, afirmou que não sabia que a empresa atuava de forma irregular e alegou que a responsabilidade contratual era da sua agência.

Esse episódio escancara o alcance exponencial dos influenciadores e evidencia como o marketing das bets se infiltrou nos circuitos mais visíveis da cultura digital. Mas a questão não se resolve apenas na legalidade da publicidade. O que está em jogo envolve formas de circulação de afetos, modelos de subjetivação e estratégias técnicas de captura do desejo. Um olhar atento à materialidade das redes e às forças que atravessam a cultura digital permite perceber camadas menos visíveis desse fenômeno.

Em vez de tratá-los apenas como culpados ou inocentes, podemos ver os influenciadores como pontos de conexão em sistemas complexos. Eles fazem parte de agenciamentos maquínicos, como propõem Deleuze e Guattari (1980), em que corpos, algoritmos, plataformas, imagens e fluxos financeiros operam juntos na produção de modos de vida[1]. A subjetividade, nesse contexto, não é uma essência individual, mas algo que se forma a partir desses atravessamentos — um efeito desses circuitos técnicos e afetivos. Suas postagens ativam desejos, alimentam fantasias, dão forma a uma ideia de sucesso que mistura ascensão social, ostentação e sorte.

Nesse circuito, o que se compartilha não é só informação. São afetos. E o afeto tem uma potência que escapa à linguagem (Massumi, 2022). Ele atravessa o corpo antes mesmo de se traduzir em pensamento. O clique na bet não acontece por convencimento racional. Ele surge como resposta a um clima de excitação, muitas vezes encenado em vídeos rápidos que prometem ganhos fáceis e imediatos. Esse ambiente de circulação é moldado por sistemas automatizados que priorizam o que engaja, o que emociona, o que promete. Plataformas como YouTube, TikTok e Instagram ajustam seus algoritmos de forma contínua, favorecendo aquilo que gera mais resposta emocional. A viralização se torna um efeito colateral calculado. Quanto mais afeto, mais visibilidade. E quanto mais visibilidade, maior a chance de repetição.

O caso das apostas escancara uma lógica mais ampla: um novo regime de financiamento da influência nas redes. Nele, a produção de conteúdo se entrelaça à captura algorítmica do desejo e à monetização de afetos em larga escala. Não se trata apenas de divulgar produtos, mas de sustentar sistemas inteiros de visibilidade, engajamento e consumo.

Esses algoritmos não são apenas ferramentas técnicas, como já discuti numa pensata anterior. Eles funcionam como infraestruturas de poder, com efeitos concretos sobre o que a gente pode ver, sentir e desejar. Cada toque na tela, cada curtida, cada pausa no vídeo alimenta um sistema que aprende em tempo real. Esta é a lógica da For You, do TikTok, por exemplo. E esse aprendizado afeta diretamente o que circula, o que viraliza e o que se torna comportamento comum.

As plataformas de apostas, nesse contexto, operam como máquinas desejantes. Elas capturam a imagem do sucesso que por muitas vezes é encarnada por influenciadores que performam vitórias e estilo de vida e, então redistribuem essa imagem como promessa acessível. O jogo se infiltra no cotidiano, aparece em meio a conteúdos de entretenimento e passa a ser visto como uma escolha banal, quase inevitável. O “disclaimer” é protocolar. Quase ninguém realmente se atenta para a tal dica de jogar com responsabilidade. Ele funciona mais como imunização simbólica do que como instrumento real de prevenção.

Responsabilizar os influenciadores é necessário, mas não é suficiente. A CPI ilumina parte do problema, mas não dá conta da complexidade envolvida. A responsabilização tende a concentrar a culpa em indivíduos, desconsiderando os arranjos institucionais e tecnológicos que os atravessam. Quando Virginia transfere a responsabilidade à sua agência, não está apenas se esquivando. Está revelando como essa cadeia de ação é distribuída, difusa, e própria de todo agenciamento maquínico.

Além disso, cabe lembrar que o próprio Estado, ao mesmo tempo em que investiga os efeitos dessas práticas, também tem sido omisso ou permissivo na regulação da publicidade digital e da indústria de apostas. O problema é estrutural, e não episódico. O que está em curso é um ecossistema técnico e afetivo que articula visibilidade, desejo e risco dentro de lógicas cada vez mais sofisticadas de monetização da atenção.

Se antes o jogo era escondido em ambientes discretos e marginalizados, hoje ele aparece entre stories, sorteios e danças virais. Apostar virou conteúdo. O feed virou cassino. E a subjetividade, essa sim, está em jogo.


[1] Os autores descrevem os agenciamentos maquínico como sistemas heterogêneos de elementos humanos e não-humanos (corpos, objetos, ideias, máquinas), que se articulam para produzir algo (ações, afetos, fluxos). Influencers + plataformas + desejo + aposta = agenciamento maquínico.

Fadiga algorítmica: quando a Geração Z cansa das próprias trends

A Geração Z está cansada das próprias trends. Pelo menos é o que aponta uma recente matéria do New York Times republicada pela Folha, que identifica uma espécie de fadiga diante da velocidade cada vez maior das modinhas que surgem e desaparecem nas redes sociais. Esse esgotamento não é apenas geracional, mas estrutural: resultado da plataformização da cultura, onde o desejo de engajamento é capturado, amplificado e rapidamente exaurido por arquiteturas algorítmicas que operam em ciclos cada vez mais curtos.

As tendências emergem e desaparecem em um fluxo contínuo: clean girlmessy girlno-makeup makemob wife aestheticAnxiety viral dance, acessórios efêmeros como as garrafas térmicas gigantes em tons pastéis, livros de colorir do Bobbie Goods ou até hábitos passageiros, como a obsessão por salada de pepino e vídeos ASMR[1]. Não há pausa: a cada semana, novos objetos e estéticas capturam a atenção apenas para logo serem descartados. A jornalista Callie Holtermann ainda menciona os aceleradores do ciclo de tendências e as funções clique-para-comprar, do TikTok Shop, que parecem encurtar o tempo entre ver e desejar um produto e tê-lo na porta de casa, quase sem ponderar a real necessidade de ter daquilo.

Plataformas como TikTok, Instagram e YouTube não são meros veículos de conteúdo, mas agentes ativos na produção de desejos e na obsolescência acelerada. Elas não apenas capturam tendências, mas as projetam estrategicamente, acelerando seu ciclo de vida e amplificando sua circulação até a saturação. O que viraliza não é fruto apenas da vontade coletiva, mas da performatividade algorítmica que reorganiza o fluxo da atenção e retroalimenta o ciclo de consumo. Cada interação – um like, um compartilhamento, um comentário – alimenta mecanismos preditivos que ampliam a circulação de determinados formatos até que percam a eficácia e sejam descartados.

A lógica do For You Page no TikTok e dos sistemas de recomendação em outras plataformas exemplifica essa dinâmica: ao identificar padrões de interesse, a plataforma multiplica conteúdos similares, promovendo uma hiperexposição que rapidamente leva à saturação. O resultado é um consumo cultural em modo fast-forward, onde cada trend já nasce com data de validade, tornando a experiência estética e o pertencimento digital descartáveis.

Essa fadiga não é apenas um esgotamento subjetivo, mas um sintoma da intra-ação entre humanos e infraestruturas digitais. A Geração Z não está simplesmente “se cansando”, mas sendo modulada por um ecossistema que intensifica e descarta desejos em ciclos acelerados. O tédio, a ansiedade e a exaustão não são efeitos colaterais acidentais, mas produtos imanentes dessa lógica de modulação. Tendências – sejam estéticas, memes ou áudios – não surgem espontaneamente; elas são performadas por interfaces, cálculos preditivos e lógicas de engajamento que automatizam sua ascensão e obsolescência. Plataformas moldam afetos, ritmos e percepções do tempo – instaurando uma sensação de urgência constante, como se cada nova trend fosse uma chance única de pertencimento.

Neste panorama, usuários não são apenas espectadores, mas coprodutores dessa exaustão, ajustando-se continuamente às dinâmicas impostas pelos algoritmos. O desejo de engajamento não é uma propriedade estritamente humana, mas algo distribuído em uma rede que inclui métricas, sistemas de recomendação e modelos de monetização. O que está em jogo não é apenas o cansaço diante das trends, mas uma subjetividade constantemente reorganizada por infraestruturas digitais que operam no limite entre a hiperexposição e o descarte.

Esse ritmo acelerado de surgimento e desaparecimento de tendências intensifica estados de ansiedade e instabilidade, especialmente entre jovens que buscam pertencimento e reconhecimento em meio a fluxos algorítmicos que não cessam. A subjetividade se vê pressionada a acompanhar um tempo que não é mais humano, mas maquínico – regulado por métricas, atualizações e impulsos de virabilidade.

Se antes a crítica ao consumo rápido mirava o fast fashion, hoje lidamos com um fast trend, onde a experiência estética, o pertencimento cultural e até a própria subjetividade são comprimidos pelo tempo algorítmico. Quando tudo se torna obsoleto em questão de dias, resta a dúvida: o que acontece com a construção identitária quando o desejo é capturado antes mesmo de se consolidar? Se a subjetividade é constantemente ajustada às novas modinhas, será que ainda há espaço para um desejo que não seja pré-formatado pelo algoritmo?


[1] As trends citadas referem-se a estéticas e comportamentos populares no TikTok: clean girl (visual minimalista e “limpo”), messy girl (estilo despojado e caótico), no-makeup make (maquiagem que imita o rosto sem maquiagem), mob wife aesthetic (visual exagerado e chamativo inspirado em esposas de mafiosos). Também são listadas práticas de consumo impulsionadas pelo TikTok, a exemplo da compra e publicação do processo de pintura dos livros da série Bobbie Goods; vídeos de Autonomous Sensory Meridian Response (ou Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano, em português) – que são publicações que pretendem distrair e relaxar o cérebro através de sons; e, uma receita viral de salada de pepino preparada numa tupperware.

::: este texto foi originalnmente publicado como uma Pensata 404, no site do Lab404, o grupo de pesquisa que integro durante o meu doutoramento.

apenas uma camponesa

Eu confesso que fiquei um tanto passado quando descobri que alguém começou a gastar seu tempo – uma coisa luxuosa para se desperdiçar nos dias de hoje (ou desde sempre) – fazendo campanha difamatória contra mim. Pior que isso, uma parada meio monotemática que o povo da psiquiatria poderia considerar uma fixação ou um amor reprimido.

Logo eu, apenas uma camponesa. Com tanto paunokoo no mundo, tanto pombo sujo, tanto político, síndico de prédio, cantora racista, influencer de tigrinho, agressor de animais… a pessoa resolve investir sua energia pra criar fic em que sou o antagonista maligno que solta fogo por todos os orifícios.

Essa conversa me dá uma preguiiiiça…

Ao mesmo tempo, ou pela influência da temporada nova de The White Lotus abordando o budismo, por uma outra coisa que li outro dia ou pela admiração que tenho por alguns princípios que tenho por essa religião (ou filosofia de vida), me vi movido a estragar a festa da delusional só pela paz de viver o meu samsara e tirar do caminho aquilo que bloqueia o fluxo da (minha) vida.

Nada pior para um libriano do que dar importância para o que pra gente sempre foi indiferente. De novo, a preguiiiiça de precisar sair do mood da minha vida pra tratar de uma coisa que mesmo com potencial de me atacar não faz nem cócegas.

Para alegria temporária da pessoa-demônia, saí do meu prumo e comecei a sentir o baque desse tiroteio de merda. Chorei, dei uns berros, murmurei com quem tem ouvido e mesmo assim me ama e fiz o que manda o budismo (eu queria escrever em inglês ordenando que quem lesse imaginasse o mesmo sotaque da Parker Posey – BU-DIZZ-AMM): chutei a porra da pedra que travava o fluxo do rio da minha paz de espírito.

É ótimo! Recomendo.

Voltei para a minha vida campestre e posso dizer que o piado que já era baixo virou um zunido que só animais de muita sensibilidade auditiva podem escutar.

É meuzirmãos, o budismo fala de karma, de impermanência, de sofrimento, de desapego, mas também é sobre empenho na jornada de não deixar doido nenhum encher de brita o riacho por onde corre a estrada da nossa vida.

dead short

Queria descobrir
Em 24 horas tudo que você adora
Tudo que te faz sorrir
E num fim de semana
Tudo que você mais ama
E no prazo de um mês
Tudo que você já fez
É tanta coisa que eu não sei

Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você

E até saber de cor
No fim desse semestre
O que mais te apetece
O que te cai melhor
Enfim eu saberia
365 noites bastariam
Pra me explicar por que
Como isso foi acontecer

Não sei se eu saberia
Chegar até o final do dia sem você

Por que em tão pouco tempo
Faz tanto tempo que eu te queria

🎧Tudo sobre você | Zélia Duncan

por isso sonho

Depois que eu envelhecer
Ninguém precisa mais me dizer
Como é estranho ser humano
Nessas horas de partida

🎧: Coisas da vida (Rita Lee/Roberto de Carvalho)

Ganhei Rita Lee – outra autobiografia no Natal e, devido ao tumulto do começo do ano, só consegui concluir a leitura hoje. De novo, sem fôlego.

Se eu já tinha uma admiração pela artista, depois que li a primeira autobiografia há quase 8 anos, recebi o atestado da própria protagonista, sobre o que é estar na pele de alguém que era exatamente o que cantava ser.

            Desta vez a história tem um gosto meio estranho porque é o registro dos dois últimos anos antes de sua partida, o auge global da pandemia, dez anos depois do show que marcou sua aposentadoria.

            De alguma maneira me relaciono com a história pela reflexão cada vez mais constante de que o meu corpo está envelhecendo mais rápido que antes; que parece existir um descompasse entre a aceleração dos meus pensamentos e a velocidade que este corpinho responde a essas mensagens – ouvi isso de Rita, de minha mãe, de tanta gente… Não se trata de uma inconformidade com o futuro, mas um desarranjo que a gente leva um tempo pra entender ou simplesmente aceitar.

            No caso de Rita Lee, esse corpinho de 35kg se viu devorado por vários mini cânceres que ela encarou ora com humor, ora acessando uma espiritualidade deliciosamente maluca como a própria artista, ora com crises de pânico que, por mais que eu tente encenar na minha mente, não consigo encaixar a história e a personagem.

            Sem perder a espontaneidade e sinceridade, e atingindo um grau de inteligência, maturidade e “take it easy, we can handle it”, Rita vai relatando o início dos tratamentos, às novas rotinas, a afirmação daquilo que realmente importa (não que ela tenha caído em si ou mudado de opinião. São só reforços do que ela sempre acreditou tudo a vida dos animais, o contato com outros seres e outras coisas sobre humanos também).

            No processo, sem fila de prioridade, ela vê seus bichos de estimação morrerem, duas amigas de palco (Elza e Gal) partirem e seu maior nódulo – nomeado Jair – ser expelido pela bunda (diz ela).

            Assim como na primeira autobio fui lendo e ouvindo as canções que ‘sonorizavam’ aqueles momentos, mas Coisas da Vida – que ainda ocupa o meu ranking de favoritas da diva – perseguiu minha leitura. A música ainda ganhou uma camada de significado além da história óbvia sobre jornada humana. Rita conta que escreveu essa canção em 1976, que foi pro Entradas e Bandeiras, enquanto acompanhava os últimos momentos de sua mãe, que também faleceu por consequência de câncer. Tudo fez muito mais sentido.

Eu não tenho hora prá morrer por isso sonho.

let it go

Nesses últimos dias volta e meia me pego recuperando memórias de total descaralhamento. Contrário a todos os momentos em que minha parceririnha ansiedade não me deixa viver nada sem pensar em tudo o que vem depois (mesmo que às vezes nem venha. que seja só mais uma pilha nossa de cada dia), lembrei de momentos em que aquele agora era tudo o que eu tinha e eu vivi até a última gota.

Momento em que pouco importa a hora, as outras pessoas, o espaço – seguro, perigoso, vazio, superlotado… –, o saldo de uma ou outra loucurinha.

Não tem nostalgia nem saudade doída. É só aquela lembrança de uma ocasião encapsulada em que a vida estava tão boa que qualquer minuto a mais já seria sobra.

 Talvez seja meu humilde pedido pra 2025… mais momentos assim.